SISTEMA  TILT-UP


     Paredes totalmente feitas no chão, na mais completa horizontalidade. Por que não? Foi pensando nisso que americanos e canadenses criaram a tecnologia de tilt-up para erguer as paredes dos galpões de suas fábricas. Vantagens evidentes: rapidez, facilidade de trabalho, segurança. Feita a parede no chão, era só executar o tilt-up, o movimento que equivale, por exemplo, ao de levantar uma carta de baralho deitada sobre a mesa e colocá-la na vertical.
     Conhecida há pelo menos sessenta anos - e aplicada numa escala que ronda os 15% das construções industriais em território norte-americano - a tecnologia do tilt-up vai conquistando seus espaços no Brasil. No princípio, esse era o terreno exclusivo da construtora Walter Torre Jr. Mais recentemente, a Dall'Acqua Engenharia entrou no negócio, em parceria com a americana Con Steel. E já se fala em diversificação ainda maior dos concorrentes, com a possível entrada de novos interessados nesse mercado promissor.
     A disputa promete ser das boas. Atualmente, a Walter Torre Jr. faz seus projetos aplicando tecnologia de cálculo de desenvolvimento próprio. Com isso, a construtora faz o serviço de cabo a rabo, tem o domínio completo de todo o processo. Como o piso tem que ser perfeito, nivelado a laser, inicialmente a Walter Torre Jr. abriu uma divisão de pisos dentro da empresa, trazendo todo o equipamento e máquinas dos Estados Unidos. O negócio cresceu tanto que acabou ganhando uma subsidiária chamada Plano, que hoje não trabalha exclusivamente para a construtora: apenas um terço de sua capacidade é ocupada pela Walter Torre Jr. Para execução do tilt-up, a Walter Torre Jr. utiliza mão-de-obra própria, cerca de 1.500 operários, deixando somente as instalações elétricas e hidráulicas para ser feitas por terceiros.
     Em terras brasileiras, o tilt-up tem desde 1993 o carimbo da construtora Walter Torre Jr. Foi um pouco antes dessa época que o empresário Walter Torre Jr. começou a atuar no mercado de galpões industriais, desde o início com a idéia de fazer imóveis para locação, com projetos personalizados, que atendessem às necessidades específicas de cada cliente, e contratos de longo prazo.
     Só após ter encontrado um cliente assim é que o construtor partia à procura de investidores para levantar os galpões, sempre com um locatário definido.
     Para que esta sistemática funcionasse, rapidez de construção era imprescindível: o contrato estava assinado e o cliente queria o galpão pronto o mais rápido possível. Os métodos convencionais de construção não satisfaziam essa condição. Assim, a solução à mão foi trabalhar com os pré-moldados, já em 1987, com a fundação da construtora Walter Torre Jr.
     Em 1993, em urna viagem aos EUA, o empresário descobriu o tilt-up e achou que era o método ideal para o seu tipo de negócio. Associou-se a dois institutos americanos especializados em construção com tilt-up, o American Concrete Institute (ACI) e a Tilt Up Concrete Association (TCA). No início, com pouca experiência e desenvolvendo as técnicas, a Walter Torre Jr. trabalhou em alguns projetos conjuntos com a Con Steel, uma empresa americana que espalhou o tilt-up pelo mundo, inclusive com experiências na África. Nesses casos, a Con Steel trabalhava nos projetos, enquanto a Walter Torre Jr. se encarregava da construção.
     É a mesma Con Steel que, agora, tem parceria com a Dall'Acqua Engenharia, uma construtora paulistana nascida em 1968, com um currículo de mais de 400 obras espalhadas por vinte estados brasileiros. A operação conjunta para construir em tilt-up foi anunciada em julho.
     A Con Steel realizará o treinamento de todo o pessoal da Dall'Acqua. Além disso, há a experiência já adquirida pelos parceiros de diversos países da América Latina. A qualidade também foi importada. Nos Estados Unidos, a Con Steel desenvolveu uma série de procedimentos de controle da qualidade que serão aplicados também aqui.
     Os principais fornecedores de materiais (aço, concreto e acabamentos), segundo a empresa, já são conhecidos e estão bem qualificados no mercado nacional, o que também ocorre com os componentes metálicos. Assim, apenas a tecnologia de placas metálicas utilizadas no içamento das paredes será fornecida por uma empresa estrangeira parceira da Con Steel.
     Se a Dall'Acqua conta com todo o apoio técnico e experiência da Con Steel, a Walter Torre Jr. já tem cerca de 1 milhão de m² feitos em tilt-up, afora 1 milhão de m² em outras construções. Do total, 90% são galpões industriais.

     O tilt-up
consiste, basicamente, na construção de paredes de concreto armado sobre um piso nivelado a laser que funciona como uma fôrma, utilizando um desmoldante que impede a solidarização das duas superfícies. As paredes são autoportantes, ou seja, estruturais, permitindo a construção de grandes vãos, de até 25 m, sem pilares ou colunas.
     Uma vez prontas no chão, estas paredes, também chamadas painéis, são içadas por guindaste, colocadas sobre as fundações e escoradas até serem travadas por um telhado metálico. Usando o piso e fôrmas, as paredes já são erguidas com vãos de portas e janelas, além de diversas possibilidades de frisos e texturas diferentes para acabamento.
     Ao contrário do padrão das construções convencionais, no tilt-up o piso é o início da obra. Primeiro, é feita toda a movimentação de terra, preparando-se o terreno para a execução do piso. Depois, são moldados e levantados os painéis, mais tarde travados pelo telhado metálico. A partir deste momento, não há mais terra dentro da obra. Com isso, garante-se mais limpeza que, aliada a uma boa organização, pode resultar em ganhos significativos de produtividade.
     A simplicidade também é uma virtude do tilt-up, pois trabalha-se com concreto e aço em um processo básico de concretagem de paredes de 15 a 20 cm de espessura. Estão presentes alguns importantes detalhes técnicos, mas, grosso modo, é a mesma coisa que concretar uma laje.
     Sem impor nenhum tipo ou espécie de restrição a alternativas arquitetônicas e de acabamento, um guindaste pode chegar a levantar de 20 a 25 painéis por dia. Nos Estados Unidos, por exemplo, já foi desenvolvida uma técnica de fixação dos caixilhos com as paredes ainda no chão. Inovações como esta fazem parte de uma busca constante de redução do tempo de construção. Concentrando-se neste objetivos, segundo a Con Steel, os americanos conseguiram alcançar uma redução de 20% nos prazos de obras e de cerca de 1 8% por m² construído.
     Quando içadas, as paredes são colocadas e solidarizadas nas fundações, estas também realizadas muito mais rapidamente por não haver necessidade de pilares. Enquanto ainda não estão travadas pelo telhado, as paredes são escoradas por estacas metálicas presas ao piso. Todo este sistema de sustentação temporária das paredes é mantido até a colocação do telhado metálico e o contraventamento que trava a estrutura e possibilita a retirada das escoras.
     A montagem do telhado é toda realizada no espaço interior do galpão, exatamente abaixo do local em que vai ser instalado, racionalizando o processo e, de novo, o tempo. Em grande parte das obras são utilizadas telhas zipadas, que são retorcidas para se unirem umas às outras. Assim, eliminam-se parafusos e torna-se possível utilizar telhados com pouquíssima declividade, vencendo grandes vãos com apenas duas hastes. A estrutura de uma caixa de sapatos, absolutamente sólida e equilibrada, pode se constituir em boa metáfora. Recomenda-se a colocação de um pilar (metálico ou de concreto) a cada 25 m para sustentar as vigas do telhado.
     Os painéis estruturais são independentes, para evitar problemas de trincas e rachaduras com a extensão e movimentação da estrutura. A união deles é feita por solda, através de uma estrutura metálica aparente preparada para esta função. O fechamento completo se dá por meio de um selante que cobre as emendas.
     Nem tudo são facilidades, é verdade. Há complexidades evidentes em erguer o painel, mantê-lo no ar e fazer o ajuste preciso sobre as fundações. No entanto, a técnica de cálculo já é dominada por profissionais brasileiros. Trata-se, em síntese, de dimensionar a resistência das placas, para não haver quebras durante o movimento, nem aumento de custos por se exagerar na prudência.
     O sistema tem limites de cálculo estrutural, mas não há restrição nenhuma quanto ao modelo arquitetônico, nem necessidade de padronização de desenho. É permitido usar recursos como frisos, cores, aberturas e formas. Esta virtude, a flexibilidade, começa a ser valorizada no Brasil no segmento de construções industriais, juntamente com o paisagismo, em sintonia com a filosofia de que um local agradável para trabalhar é um fator muito importante para a produtividade da mão-de-obra.
     De volta à regra, não há procedimentos especiais para garantir a qualidade. Nada fora do comum, além de procedimentos como controle tecnológico do concreto, testes de carga etc., que, somados a uma boa organização de obra, praticamente garantem a qualidade.
     Na segurança, ganham-se pontos com a redução do trabalho de operários em grandes alturas. No tilt-up, a maior parte da execução da obra se dá no chão, com as paredes na horizontal. Desta forma, poucos trabalhadores são necessários para serviços em partes altas dos edifícios, diminuindo o risco de acidentes. Como resultado final, tem-se menor número de operários trabalhando com mais segurança.
     Normalmente, as paredes de tilt-up têm altura de 10 m, variando entre 8 e 12 m. Com 12 m de altura, está-se falando de três andares. Em uma obra realizada em Montes Claros, MG, a Walter Torre Jr. construiu uma parede de 18 m de altura. Isto significa que é possível construir, e hoje se faz muito nos Estados Unidos, painéis de 3 a 4 andares. Para isso, o tilt-up é concretado com um console, preparado com uma estrutura de ferro por dentro para sustentar os pavimentos em que são apoiadas lajes pré-moldadas. Com isso, o tilt-up, aplicado inicialmente em galpões industriais, vai conquistando espaço em outros tipos de edificação, excetuados os prédios altos. Hoje, no Brasil, estamos no meio do caminho entre o galpão e o escritório. A Walter Torre Jr. já construiu dois andares e pretende chegar a quatro com o projeto de lançamento de uma linha de produtos em tilt-up para escritórios.
     Segundo a Dall'Acqua Engenharia, em projetos semelhantes o tilt-up consegue uma economia de tempo ao redor de 6 semanas em relação ao projeto mais convencional. No entanto, para a Walter Torre Jr. a rapidez de construção é muito semelhante à de pré-moldados e metálicos. Só que, aliada à velocidade, está a versatilidade. Ampliações e reformas tornam-se muito mais fáceis e rápidas porque o tilt-up pode ser projetado para permitir alterações pela simples introdução, recolocação ou retirada de painéis e aberturas.
     Todavia, mais que construir rápido, o sistema permite liberar os galpões muito antes para a ocupação. Como? Quando o telhado estiver colocado, o galpão ainda não está pronto, mas não há mais terra na obra e o espaço interno está protegido por piso, telhado e paredes. Então, mesmo que o galpão demore o mesmo tempo que uma construção metálica ou de pré-moldados para ficar pronto, a ocupação se dá antes.
     Segundo Mauro Pincherle, diretor de operações imobiliárias da Walter Torre Jr., a empresa está construindo um galpão de estocagem de 52 mil m² para o Carrefour, na Via Anhangüera, com prazo de 155 dias para entrega definitiva da obra. Entretanto, em 135 dias o cliente já poderá iniciar a montagem de seus depósitos.
     E o custo? Pode variar muito, pois há galpões extremamente singelos e outros bastante equipados, com ar condicionado central, isolamento térmico e acústico, equipamentos de alarme e contra incêndio etc. Os primeiros custam cerca de R$ 200,00 o m²; os últimos, R$ 700,00.
     Em galpões grandes, acima de 25 mil m², o tilt-up tende a ser mais econômico. Em qualquer hipótese, é um preço muito competitivo. As paredes são autoportantes, ou seja, não é preciso construir pilar algum. Os materiais utilizados na obra, basicamente aço e concreto, têm preços mais competitivos em relação aos pré-fabricados ou estruturas metálicas. Em razão da simplicidade do sistema, há menos variáveis de custo a serem consideradas, o que facilita o controle orçamentário. A durabilidade do concreto e a versatilidade do tilt-up diminuem a necessidade de manutenção.
     Como tudo é feito na obra, também se economiza com transporte - reduzido ao trabalho de um guindaste de grande porte. Está aí uma vantagem em relação aos pré-moldados, que perdem economicidade na razão direta da distância entre a obra e o lugar de sua produção. Por sua vez, concreto, cimento, areia e aço são encontrados em qualquer parte, o que torna o tilt-up uma tecnologia fácil de aplicar em todo o país.
     Condomínios não precisam ser residenciais, sempre. Esse formato de ocupação coletiva de um espaço arquitetonicamente planejado também serve, e bem, para abrigar galpões industriais. Com quatro empreendimentos entregues, o pioneirismo nesta atividade é do grupo Walter Torre Jr. Entre eles, o Parque Industrial Curitiba, localizado nas proximidades da nova fábrica Volkswagen/Audi, em São José dos Pinhais, PR. Há algumas iniciativas isoladas no mercado, mas, por enquanto, não existem concorrentes apostando neste modelo em grande escala.
     As facilidades e liberdades arquitetônicas oferecidas pelo tilt-up são tratadas, na Walter Torres Jr., em projetos de condomínios industriais nos quais as vantagens econômicas se integram a cuidados com a qualidade de vida, em termos de lazer para quem ali trabalha e ambientação paisagística. Campo de futebol, quadra de vôlei, quiosque com churrasqueira são bastante comuns. Também não faltam restaurante, ambulatório e creche, para que a empresa deixe de disponibilizar área e pessoal internos para estas atividades.
     A taxa condominial varia de R$ 1,00 a R$ 1,30 por metro quadrado (além do aluguel dos galpões). A administração dos serviços e a manutenção do condomínio ficam a cargo de empresas especializadas.
     A segurança é um dos principais atrativos dos condomínios industriais. Sistemas de proteção periférica, controle de entrada e saída, ronda eletrônica, circuito fechado de TV, botão de pânico dentro dos galpões, são alguns dos equipamentos empregados para impedir assaltos e violações de escritórios, estoques e materiais. "Não são inexpugnáveis" explica Pincherle, diretor de operações da Walter Torre Jr., "mas, de qualquer maneira, é diferente de se ter um galpão isolado na rua, onde você tem que investir para cuidar da segurança". Aqui também se investe, mas a conta é dividida entre várias empresas. Dessa forma, garante- se proteção mais qualificada, por menos dinheiro.

 

Fonte: Revista Qualidade na Construção - SindusCon/SP - nº 20 - Ano III - 1999.

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